Palazzo Vecchio: O Salone dei Cinquecento Parte II

quarta-feira, 25 de abril de 2012

Primeiro de tudo gostaria de me desculpar, pois estou meia atrasada com os post da série "Desvendando o Palazzo Vecchio". Tenho a infeliz mania de começar a escrever sobre diversas coisas ao mesmo tempo e aí acabo me enrolando. 

Hoje é dia de desvendar o famoso Salone dei Cinquecento, ou seja Salone dos Quinhentos. Tem um outro post que já falamos sobre esse argumento, mas espero agora poder aprofundar um pouco mais: Palazzo Vecchio: o Salone dei Cinquecento.

No post acima, falamos mais ou menos da história do Salone. O Salão foi construído no ano de 1496 por vontade do Frade Savonarola que depois da morte de Lorenzo Il Magnifico, expulsou a familia Medici de Florença e tomou conta do poder político da cidade. O salão foi construído exatamente para poder receber o conselho do povo que possuia mais ou menos1500 membros e o salão acolheva esse conselho em 03 turnos, cada um de 500 pessoas, por isso o nome de Salão dos Quinhentos. O arquiteto responsável pela construção do salão se chamava Simone del Pollaiolo, conhecido também como "Cronaca".

Quando foi construído o salão era muito diferente desde que vemos agora. Importante lembrar, que Savonarola era um frande domenicano e condenava qualquer tipo de luxo. Não existia toda a decoração e o luxo que vemos hoje. O teto era mais baixo, os grandes janelões que vemos hoje não existiam e por isso o salão era extremamente escuro.

O aspecto atual do Salão é marcado pelas transformações promovidas pelo Duque de Florença Cosimo I que aconteceu na metade de 1500. Cosimo foi coroado duque no ano de 1537 com apenas 18 anos de idade e em seguida resolveu transferir a residência ducal do Palazzo Medici-Riccardi para o Palazzo Vecchio. Foi uma decisão acima de tudo política e por isso ele transformou quase todo o palazzo que foi utilizado principalmente como uma máquina de publicidade do poder do Duque.

Audiência com a estátua do Papa Mediceo Leone X ao centro
O primeiro ambiente que ele modificou no Palazzo Vecchio foi exatamente o Salone dei Cinquecento o qual ele mandou construir um espaço chamdo de "Audiência" que é uma espécie de tribuna que vemos ainda hoje no fundo do salão. A Audiência foi construida por Baccio Bandinelli e por Baccio d'Agnolo e tinha a função de palco cenico para os encontros oficiais do duque. A arquitetura da Audiência se inspira a um arco de trionfo romano, ideal para a exaltação do poder do soberano. Hoje, na Audiência, encontramos uma série de estátuas que glorificam a familia Medici. Em particular são presentes dois arcos grandes com duas estátuas de papas da familia Medici: no centro Leone X e a direita Clemente VII que coroa o Imperador da Espanha Carlos V.

Nas outras nicchie encontramos a estátua do Duque Cosimo I com o seu simbolo a tartaruga a vela, ao lado direito de Leone X, Giovanni dalle Bande Nera (pai do Duca Cosimo I) e do lado esquerdo, Alessandro de'Medici, antecessor de Cosimo I. Ao lado da estátua de Clemente VII,  o Grão Duque Francesco I, filho de Cosimo I.

Vasari apresenta o projeto do Salone
Em 1560 após a morte de Baccio Bandinelli, a obra de reestruturação do salão passa ao aretino Giorgio Vasari, que será responsável por toda a transformação não só do salão, mas de todo o palazzo.

Vasari trabalha freneticamente para o duque, porque era responsável também pela construção da Galleria degli Uffizi. Para o projeto de reestruturação do Salão, Vasari pede a aprovação de Michelangelo Buonarroti, mostrando todos os desenhos e o modelo em madeira.

O teto feito anteriormente foi totalmente desmontado e as paredes foram aumentadas em 08 metros de altura aproximadamente. Atrás da Audiência foram abertas grandes janelas em arcos e foram construídas ainda 10 janelas retangolares menores.

Detalhe da parte interna do teto do Salone
 O teto, todo feito a "capriate", ou seja, de madeira e com diversos quadros encaixados. A decoração do teto foi toda feita para glorificar a familia Medici, mais precisamente Cosimo I e suas obras. Os quadros do teto possuem molduras revestidas de ouro. Os 42 quadros foram feitos por uma equipe de pintores coordenados por Giorgio Vasari entre os anos de 1563 e 1565.

No centro do teto possamos ver um quadro circolar que se chama Apoteose de Cosimo I, onde o Duca è glorificado e coroado por uma alegoria que representa a cidade de Florença.  Esse quadro é a chave de leitura não só da decoração do Salone dei 500, mas de todo o Palazzo Vecchio. Uma curiosidade: no projeto original feito por Vasari, no centro do teto deveria ser feita uma pintura com a alegoria da cidade de Florença, mas foi o próprio duque Cosimo I, que alterou o projeto, dizendo que ao centro de tudo, não deveria ser Florença, mas o próprio duque. Com isso, podemos ter idéia de como foi forte a publicidade em torno do duque Cosimo I, que mais tarde foi coroado Grão duque da Toscana.
Apoteose de Cosimo I
 O mais curioso no quadro acima - Apoteose de Cosimo I - é que em torno ao duque, podemos ver várias alegorias dos bairros de Florença, os famosos "quartieri" e das artes que eram associações profissionais que um tempo governaram a cidade. Podemos reconhecê-los através dos desenhos nos escudos. Com isso o Duque Cosimo I, queria representar que todos estavam de acordo com o seu governo. No alto, podemos ver a alegoria que representa a cidade de Florença que coroa o duque.

As pinturas do teto do Salone dei 500 representam também diversas fases da história de Florença. Podemos citar uma em especial que representa a fundação da cidade pelos romanos, vejam abaixo:

Nesse quadro podemos ver ao centro, a primeira ponte construída em Florença, que era localizada aproximadamente onde hoje está a famosa Ponte Vecchio. Podemos notar no fundo, uma construção de planta octagonal que nos sugere a construção do Batistério. No tempo de Cosimo I, se acreditava que o Batistério foi construído sobre um templo romano dedicado a Marte, o deus da guerra. Em alto, a direita, podemos notar uma construção muito parecida com o Colosseo de Roma, era o anfiteatro romano de Florentia. Em primeiro plano, o imperador Julio Cesar que ordena aos romanos a construção da cidade de Florentia.
 No quadro acima podemos ver Arnolfo di Cambio, arquiteto que construíu diversas obras no final de 1200 como o Duomo, Santa Croce, Palazzo Vecchio, que apresenta a Signoria de Florença o projeto de construção dos novos muros da cidade.

Podemos ver no fundo, a cidade de Florença no final de 1200, inicio de 1300 e o Bispo que abençoa a primeira pedra colocada na construção do novo muro da cidade. No quadro acima podemos admirar o campanário del Duomo e o canteiro de obras da catedral, que ainda não possui a cupola. 

A cidade de Florença era dividida em quatro partes, ou bairros que eram chamados de "quartieri" que são aqui representados como guerreiros romanos acompanhados pelos escudos. Santo Spirito representado pela Pomba do Espirito Santo e Santa Croce pela cruz. No segundo quadro Santa Maria Novella representada pelo sol e San Giovanni pela representação do Batistério de Florença. No meio dos dois quadros, entre os quartieri, encontramos um leão, o Marzocco, símbolo da cidade de Florença e mais acima uma figura feminina, que representa a cidade de Florença.

Quartieri de Santa Croce e Santo Spirito
Quartieri di Santa Maria Novella e San Giovanni
Ainda no teto encontramos um quadro que representa o duque Cosimo I que estuda a fortificação de Siena, uma das cidades que ele consquitará e que as batalhas foram afrescadas em uma das paredes do salone. Vejam abaixo:
 
O Duca Cosimo I è representado sozinho numa sala onde estuda a fortificação de Siena, cidade que conquistará em breve. As diversas figuras que acompanham o duque não são humanas, são alegorias que representam as virtudes necessárias para estudar o projeto, e claro, o Duque possui. 

01) Duque Cosimo I, estuda e desenha com um compasso a fortificação de Siena. Ele não precisa de conselhos de ninguém, faz tudo sozinho, acompanhado somente das suas virtudes.

02) Alegoria do Silêncio  que cobre os lábios com a mão, evidenciando que quando se faz um projeto è necessário manter a boca fechada, ou seja, em segredo. Se vocês notarem bem, não só a boca é fechada, mas a cabeça do silêncio é coberta com um manto, que nos faz crer que também os nossos pensamentos devem ser celados. O Silêncio enfim, representa a extrema concentraçãdo do Duque e o segredo necessário para a execução de qualquer projeto. 

03) A Força  - Apoiada a uma coluna, a Força è abraçada pela Prudência, ou seja, sem prudência a força não é suficiente para conseguir nossos objetivos. A Prudência possui um espelho em mãos, o que permite a Força a ver tudo que acontece nas suas costas.

4) A Paciência - É caracterizada por uma urna, que uma vez que é cheia, transborda. A Paciência é acompanhada pela Vigilância que è a portadora de luz, que mantém a paciência sempre em alerta, para não transbordar.

Como podemos ver, a Força é a única virtude de ação é acompanhada de 04 virtudes de pensamento: paciência, vigilância, prudência e silêncio. 

05) Nos angulos podemos notar o símbolo do duque Cosimo I, a tartaruga com a vela. Aliás, esse símbolo a gente vai encontrar espalhado por todo o Palazzo Vecchio. A Tartaruga é conhecida mundialmente pela sua lentidão e nesse caso é uma metáfora da paciência, da prudência e da vigilância, ou seja, quando estudamos um projeto não podemos ser guiados pelo impulso e pela pressa. Devemos ser paciênte e prudente. Mas ao mesmo tempo, notamos na tartaruga uma vela de barco, ou seja, um motor de velocidade que faz com que a tartaruga ande mais veloz. A vela nesse caso é uma metáfora da força e simboliza juntamente com a tartaruga que devemos estudar e planejar antes de tomar uma decisão, mas quando a decisão foi tomada, devemos agir, ou seja: faça o que tem que ser feito, pois você poderá perder a oportunidade.

E por último para terminar a decoração das pinturas do Salone dei 500, as pinturas feitas nas paredes, que representam de uma parte a guerra de Florença contra Pisa e da outra parte, Florença que conquista Siena.

A guerra contra Pisa è representada na parede onde está a porta de acesso ao Salone. Importante lembrar que Florença precisou de

Parede oeste Florença x Pisa:

La sconfitta dei pisani alla torre di San Vincenzo

 Massimiliano d'Austria tenta la conquista di Livorno

Pisa attaccata dalle truppe fiorentine

Na parede leste Vasari pintou diversas cenas de batalhas de Florença contra Siena:

 
La presa di Siena

 La conquista di Porto Ercole

La vittoria di Cosimo I a Marciano in Val di Chiana

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Cristiane de Oliveira, brasileira, natural do Rio de Janeiro, mora em Florença
há mais de cinco anos. Apesar de ter o coração verde e amarelo, se apaixonou pela Italia e mais precisamente por Florença a ponto de estudar minusiosamente a história da arte, do povo e da cidade onde vive. Hoje, Cristiane, è guia turística autorizada da cidade de Florença.

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